A dor eterna da perda de um filho

  A perda contranatura de um filho, enquanto experiência traumática, tende a ser definida pela ciência psicológica como a perda mais dolorosa que qualquer ser humano pode vivenciar.

  Inclusivamente, a morte de um filho é acompanhada de inúmeras outras perdas, como a perda das expectativas para o futuro, a perda dos momentos de proximidade emocional insubstituíveis e a perda do próprio sentido de identidade.

  Não raras vezes, o sofrimento causado pela perda, descrito pelos pais como “a maior dor do mundo” provoca uma enorme sensação de vazio, dado que o papel parental é um dos mais importantes para a identidade do ser humano. Um dos principais conflitos internos vividos pelos pais é a tentativa de dar resposta à questão “quem sou eu agora?”, a qual vem acompanhada por outras dúvidas, como se continuam a ser reconhecidos como pais pela sociedade, em caso de perda de um filho único.

  O vazio pelo qual os pais são invadidos é acompanhado por emoções como a zanga e, principalmente, a culpa. A zanga é resultado da sensação de injustiça provocada por uma perda tão violenta e dolorosa, associada a sentimentos de impotência, revolta e frustração. A sensação de culpa é causada pela crença de que os pais têm a capacidade de proteger incondicionalmente os filhos. Ainda que esta crença seja errada e os pensamentos de autorresponsabilização sejam irracionais, estes são gerados pela dor indescritível que é vivenciada pelos pais. Por sua vez, a culpa tem um impacto emocional destrutivo e tende a levar os pais a acreditar que falharam na tarefa de cuidar dos filhos.

  A morte de um filho, enquanto perda primária, é ainda acompanha por inúmeras outras perdas, tais como a perda do suporte social, uma vez que as pessoas mais próximas tendem a afastar-se por não saber o que dizer, bem como a perda das dinâmicas conjugais anteriores – as designadas “perdas secundárias”. É vivida uma menor disponibilidade para a vida conjugal e também para o papel parental. Os irmãos em luto acentuam que não só perderam um irmão ou irmã, mas também os próprios pais que “nunca mais voltaram a ser os mesmos”.

  Ainda assim, algumas relações entre marido e mulher e entre pais e filhos podem ser fortalecidas pelo sofrimento da perda, que aproxima a família no sentido da ajuda mútua. Este processo é possível com recurso à comunicação e à compreensão. Se por um lado, é importante comunicar o que estamos a sentir ao outro, é igualmente importante compreender que o luto do outro é diferente do nosso e essas diferenças devem ser respeitadas. Tome-se como exemplo que enquanto a mulher dialoga com mais frequência sobre a perda e as emoções vividas, o homem, na maioria das vezes, toma a decisão de se isolar e evitar o contacto com o sofrimento. É importante que ambos respeitem as necessidades um do outro e que encontrem estratégias, em conjunto, que permitam o apoio recíproco, sem desrespeitar as necessidades individuais de cada um.

  É impossível regressar integralmente ao funcionamento anterior à perda, ou seja, os pais não voltam, de todo, a ser as pessoas do passado. Toda a identidade é reconstruída em função do sofrimento, significados e aprendizagens geradas pela experiência da perda. A perda torna-se um ponto de referência da história de vida dos pais, a qual exige que a sua autobiografia e o seu futuro sejam rescritos pelos pais e, também, pelos irmãos em luto.

  Esta é a perda com um risco mais elevado de fragilidades para a saúde mental, como é exemplo o risco de perturbação do luto prolongado, depressão, perturbação do stress pós-traumático e ideação suicida; e para a saúde física, dado o risco de patologias cardíacas e cancro.

  Estes riscos reforçam a necessidade de intervenção psicológica especializada. O psicólogo detém um papel preponderante para facilitar a identificação de estratégias e recursos para gerir o sofrimento, o encontrar de novos significados e o próprio envolvimento em rituais funcionais que permitem uma maior sensação de proximidade emocional e simbólica ao filho perdido.

 

 Sofia Gabriel e Mauro Paulino

 Mind | Instituto de Psicologia Clínica e Forense